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Artigo do Jornalista e Vereador Pedro Porfírio |
27/07/2007
E, no entanto, as nuvens continuam carregadas "O homem que cometeu um erro e não o corrige comete um erro ainda maior". (Confúcio, pensador chinês - 551 a.C a 479 a.C) Pedro Profírio Se não fosse pelas vítimas fatais, pelo clima de consternação e dor que cortou o País como um raio flamejante, eu diria simplesmente: bem feito - o governo está colhendo o que plantou. Essa crise aérea, que está longe do fim, é a mais deprimente pantomima de uma ópera bufa, cujos atores leram o script, mas, por aprendizes de feiticeiros, renderam-se ao improviso de "cacos" de mau gosto. Agora que qualquer emenda será pior do que o soneto, porque as mãos atadas não lhes permitirão sequer alcançar a perspicácia da jornalista Tereza Cruvinel, que foi às raízes da crise na captação do depoimento sereno do comandante Élnio Borges, uma enciclopédia viva da aviação comercial brasileira, tudo leva a crer que o máximo que conseguem fazer é trocar seis por meia dúzia, como bem sentenciou Fernando Gabeira. Pelo que temos escrito aqui nesta TRIBUNA DA IMPRENSA, a partir de Helio Fernandes, testemunha ocular da história, nada nos surpreendeu. E, o que é mais doloroso, pelo que intui o caminho já percorrido, a observação aguda de cada gesto e cada palavra, do abuso crônico da ignorância, lamento ter de alertar: o pior está por vir. Ministro da Defesa? Para quê? Para triturar homens da estatura moral de um Waldir Pires, jogado fora como um bagaço de laranja? Começa por aí: a criação desse ministério fantasma é muito mais do que "uma vingancinha do então presidente Fernando Henrique Cardoso contra os militares", que me perdoe o caro colega Carlos Chagas. É a execução de uma encomenda diabólica, urdida nas cartolas dos capachos de David Rockfeller e sua mega ONG, o tal "Diálogo Interamericano", gerada em 1982 para repensar a dominação do Hemisfério Sul num kit que inclui a desnacionalização da Amazônia e o rebaixamento das Forças Armadas Nacionais a um nível de subordinação e amesquinhamento paralisantes. O que o polifacético gaúcho fará que o baiano sonhador não ousou fazer? Já não basta a ignomínia da sagrada comenda colada ao peito de quem mais contribuiu para nos arrastar ao submundo de ares nunca dantes navegados? A quem convence esse blefe de novo premier quando o "afilhado" da poderosa companheira já fez o estrago e ganhou uma prebenda que desce redondo na garantia de um doce mandato de cinco aninhos intocáveis? Medo das nuvens Não me surpreende igualmente que o nosso estadista tenha confessado o seu medo das nuvens, coisa que muitos já diziam com o acréscimo de fofocas maldosas. Tanto que ele tratou de comprar o seu avião de estimação novinho em folha, aliás, por inocente coincidência, do mesmo torno da frota que já transporta os barbudinhos em seus deleites e conclaves. No seu panegírico ao novo titular, ainda nesse clima pesado em que corações sangrando percorrem o calvário da identificação dos seus mortos, nosso presidente recorreu a sua fleugma inconfundível, buscando seguir o inesquecível ensinamento da boa burguesa de sua plêiade. Ora, por que essa palrice? Isso me dá até calafrio e, de repente, num sopro andino, alcança-me a lembrança da greve dos caminhoneiros que forneceu o veneno para o golpe que tirou do poder Salvador Allende, outro sonhador de moral inatacável. Exagero na dose? Talvez, faz parte. Puseram asas nos caminhões e engendraram um padrão de segurança tão precário que o próprio presidente da República entrega a alma a Deus toda vez que fecha a porta do seu bem cuidado Airbus (que afinal, dizem, também pousa em Congonhas). E sabe por que todo esse clima que está despejando muitos vips na estrada? Aí é que está. Helio Fernandes já descreveu e repetiu com todas as letras a crônica dessa farra lúgubre que nos faz apelar ao pai nosso que está no céu. Esse aparelho que perdeu os freios em Congonhas já era sambado, com fartas vinte mil horas de vôos, antes mesmo de vestir a camisa da companhia brasileira que entende mais dos mapas da mina do que das cartas aéreas. Só com a Varig de volta O que vou dizer agora é definitivo, sem sombra de dúvidas, sem titubear: se o governo quiser reabilitar a confiança nos transportes aéreos, que representam uma demanda de 57 milhões de passageiros por ano, tem de pôr os pés no chão e refazer tudo. Não dá para repetir a mise-en-scène que entregou o ouro ao bandido e a nossa sorte a Deus com a desfiguração do vôo comercial. Remunerar o investimento é de lei e isso não se discute no regime capitalista. Mas fazer dessa busca a única razão de ser de uma atividade que mete medo até no presidente, aí é abusar da sorte. A salvação da lavoura está nos 80 anos da Varig e da comprovada competência e exemplar escrúpulo de seus profissionais, de longe, sem menoscabo dos colegas, indispensáveis à sobrevivência da competitividade estrutural das asas brasileiras. Se o governo quiser realmente resgatar o sistema que já foi modelar, precisa trazer de volta o pessoal da Varig, que acumulou o devido saber para uma gestão própria e racionalizada, sem prejuízo dos itens essenciais da aviação comercial. E para tanto, pasmem, não carece fazer mágica. Basta pagar o que deve, conforme decisão do STJ após 15 anos de processo. E isso não importa em meter a mão no bolso de cara. Os trabalhadores do Grupo Varig, através de suas lideranças, entregaram nas mãos do ministro do Trabalho, Carlos Lupi, na minha frente, uma fórmula simples, rápida e juridicamente sustentada, que asseguraria em semanas o fim dessa macabra diáspora, que já nos fez sumirem mais de 400 pilotos, desgarrados mundo afora. É isso, saibam todos: só com o reagrupamento do mais exigido plantel da aviação brasileira teremos reconstituídos os parâmetros essenciais de um sistema que não pode ser degenerado com o predomínio de ônibus que voam. Não há como pegar um avião onde as comissárias tiveram seu padrão salarial nivelados aos de empregadas domésticas e os pilotos, também equiparados por analogia a barras de cereal, são obrigados a serem dublês de si mesmos, carregando na consciência o peso de centenas de vidas que dependem unicamente de sua perícia e sorte ao precipitar do primeiro chuvisco. A mais, cabe cair na real e refazer também as colunas institucionais. Num regime democrático de direito, mais do que um ministério para diletantes, é preciso fortalecer as instituições sólidas, como as Forças Armadas, arcabouços da independência nacional, repondo-as no patamar de onde poderão oferecer o melhor de sua engenharia. Tanto como no caso da demolição dos pilares da aviação comercial, não se faz um país como o Brasil continental sem o reforço motivado de suas fardas.
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