INFORMATIVO SOBRE A TRAGÉDIA OCORRIDA EM CONGONHAS

Uma combinação explosiva

Eliane Amaral



Ganância de empresas aéreas e irresponsabilidade do governo resultam em mortes em massa na aviação

O último acidente, que ocorreu no aeroporto de Congonhas com o Airbus A-320 da TAM, há menos de 20 dias, e vitimou cerca de 200 pessoas, revelou de vez as mazelas do transporte aéreo no Brasil: o governo entrega a vida de passageiros e trabalhadores do setor à sanha de lucro das empresas em detrimento da segurança e de investimentos na infra-estrutura aeroportuária


QUARTA, DIA 25. Reunião fez abordagem mais ampla pela ótica de quem trabalha no sistema aéreo

Esta conclusão saiu da primeira reunião de profissionais do sistema aéreo e segmentos sociais, semana passada, no Centro do Rio, na qual foi decidida a criação de um movimento para mudar esta situação. Elnio Borges, comandante da Varig e presidente da Associação dos Pilotos da Varig (Apvar), afirma que o caos aéreo atual é mais político do que técnico. “O extremo do mercado nos levou a isso. A palavra para a política de aviação foi a da desregulamentação, e na verdade foi a sua desorganização. O Estado se afastou do seu papel organizador, entregando para o mercado esta responsabilidade. O primeiro mandamento da TAM, “Nada substitui o lucro”, reflete bem o resultado disto”, acusa.

O caos aéreo atual é mais político do que técnico

Segundo Elnio, o Poder Executivo vem fazendo isso desde o governo Collor, que começou toda a história quando rompeu o compromisso da bilateralidade entre países para vôos internacionais e dando fim ao sistema de vôos regionais operados apenas por companhias menores. Com o Plano Real, já no governo FHC, a estabilidade aumentou a demanda de passagens aéreas e os problemas da Vasp levaram à sua privatização. A Varig entrou em crise. A TAM e a Gol ocuparam o espaço. Na esteira das privatizações o Departamento de Aviação Civil (DAC) foi substituído pela ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), na avalanche da criação de agências reguladoras para os serviços privatizados. No governo Lula, os diretores indicados por critérios políticos completaram o serviço.

Controladores de vôo reagem

Para o presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Proteção ao Vôo, Jorge Botelho, a crise na aviação se acirrou quando os controladores de vôo resolveram reagir e revelar à sociedade os problemas existentes. “Era para não assumir uma culpa que não era nossa, mas de responsabilidade do governo”. Botelho, que foi controlador durante 27 anos, afirma que hoje o acidente da TAM e as medidas que tiveram de ser tomadas pelo governo provam que os controladores estavam certos.
“Nós fomos execrados porque resolvemos externar a problemática e não mais resolver os problemas do governo. Várias vezes denunciamos às autoridades, com documentos e relatórios, sobre os riscos na segurança aérea. Nada do que falamos foi mentira e tudo acabou confirmado: equipamentos obsoletos, rearranjo da malha aérea, órgãos que não se entendem, falta de gestão e desestruturação do setor, perda de quadros experientes.” Botelho diz que o objetivo era despertar o governo para a problemática e jamais a sabotagem, como foi veiculado. “A resposta foi punição e prisão”, lamenta. “E mesmo alertando que outro pesadelo poderia acontecer brevemente, nada foi feito. Se não houver uma mudança séria nos rumos da aviação brasileira, outros acidentes podem ocorrer”, sentencia.

TAM e Gol: o maior lucro do mundo

A crise na Varig e o aumento do número de passageiros no transporte aéreo brasileiro deram à TAM e à Gol mais mercado e mais lucros. E comparadas com as empresas estrangeiras, suas margens de lucro estão entre as maiores do setor. A TAM lidera o mercado no Brasil com 49,1% das rotas nacionais e 69,6% das rotas internacionais. De 2005 a 2006 seu ganho foi de 197%, saltando de R$ 187 milhões para R$ 556 milhões. Já a Gol, que ocupa a segunda colocação, detém 39,8% das rotas nacionais e 12,2% das rotas internacionais. Seu lucro foi de 61%, passando de R$ 424 milhões para R$ 684 milhões.

Roteiro de tragédias



No dia 31de outubro de 1996, há 11 anos, 99 pessoas morreram no acidente com o Fokker 100 da TAM. A aeronave caiu pouco depois de decolar do aeroporto de Congonhas e atingiu casas no Jabaquara (zona sul de São Paulo). O destino era o Rio de Janeiro. A apuração de quase três anos foi arquivada sem conclusão e os parentes das vítimas (passageiros e moradores) ainda lutam pela indenização. Laudo da Aeronáutica atribuiu o acidente do vôo 402 a uma reação da tripulação e a um defeito não previsto pelo fabricante. O avião teve uma pane no “reverso”, o freio auxiliar.



Em 29 de setembro de 2006, a colisão em pleno vôo de um Boeing da Gol contra a asa de um jato executivo Legacy da empresa americana Excel Aire causou a morte de 154 pessoas. Os tripulantes do Legacy nada sofreram. A aeronave havia saído de Manaus, com destino ao Rio, e deveria fazer uma escala em Brasília. Os destroços do avião foram encontrados em uma área de mata no estado de Mato Grosso. Esta era considerada a maior tragédia da aviação brasileira e a Polícia Federal atribuiu a culpa do acidente aos pilotos americanos do Legacy, que retornaram ao seu país durante o inquérito.



O segundo acidente de grandes proporções na história da TAM e em área urbana, precisamente em Congonhas, também foi o pior do país. Dez meses após a colisão da Gol, o Airbus da TAM não conseguiu pousar no aeroporto de Congonhas e se chocou contra o prédio da própria companhia e um posto de gasolina, explodindo em chamas. A tragédia ocorreu no dia 17 de julho e ainda são procurados as vítimas do vôo 3054, que podem chegar a 200, a maioria carbonizadas. Os responsáveis pelos quase 20 órgãos que integram a estrutura aeroportuária se eximem de suas responsabilidades sobre o acidente.