MATÉRIAS DO JORNAL DO BRASIL
 SOBRE A CRISE AÉREA.
Jornal do Brasil
12/08/2007
Rotas, a teia da crise nos ares
Kayo Iglesias e Rodrigo Camarão

A derrocada da Varig, a corrida desenfreada para ocupar o espaço da então maior empresa de aviação do país e a falta de critério no redesenho da teia de rotas que compõem a malha aérea foram as causas diretas do emaranhado que o governo tenta desfazer depois do maior acidente aeronáutico da história do Brasil. Especialistas apontam: a tarefa do ministro da Defesa, Nelson Jobim, será árdua.

A crise que começou na década de 90 e culminou no leilão da Viação Aérea Rio-Grandense S/A, em 2006, fez com que o mercado se tornasse apertado, de acordo com os estudiosos da área. Aviões deixaram de levantar vôo. Um excedente de milhares de profissionais engrossou a reserva de trabalho. Os passageiros migraram das rodoviárias para os aeroportos, por causa da queda no preço da passagem e do aumento do poder de compra.

Mas, ao contrário do que se possa imaginar, o número de pousos e decolagens diminuiu. Além disso, as empresas concentraram suas operações em pontos como Congonhas e Brasília, para otimizar os custos - sem o planejamento nem a fiscalização devidos do governo.

Durante seminário sobre a crise aérea promovido pela Coppe/UFRJ, quinta-feira, a quebra da Varig foi uma das principais causas apontadas pelos especialistas para a crise aérea atual. O comandante Elnio Borges Malheiros, presidente da Associação dos Pilotos da Varig (Apvar), lembrou que a saída da empresa do mercado fez com que aproximadamente 60 aeronaves também deixassem os céus do país.

- Tiveram que aumentar o uso das aeronaves existentes - alerta Elnio. - Os ciclos de manutenção ficaram cada vez menores. Estão ainda dentro do permitido, mas aumentam o risco da operação. Houve uma absorção de um certo número de passageiros, mas acompanhada de uma sobrecarga de equipamentos e tripulação.

Elton Fernandes, professor de Engenharia de Produção da Coppe/UFRJ, usa dados da Infraero, a estatal que administra os aeroportos, para mostrar que, de 1998 ao ano passado, houve um aumento de 59% do número de passageiros, de 64.021.990 para 102.185.376. O número de movimentos das aeronaves, calculado pelos pousos e decolagens, entretanto, caiu aproximadamente 6% no período. Passou de 2.046.671 para 1.918.538.

- A Varig tinha 50% do mercado doméstico, mas era um desastre financeiro - conta Elton. - Com a quebra, não tivemos um aumento estrondoso de passageiros que pudesse gerar constrangimento na estrutura. O que houve foi a concentração de movimento nos aeroportos de Brasília e, principalmente, Congonhas. O governo deveria regular isso. O fim da Varig foi um desserviço para a sociedade, e ela talvez esteja pagando em crise aérea muito mais do que o prejuízo da empresa. A conta é muito maior que o buraco da Varig.

 

 

Jornal do Brasil
12/08/2007
Apagão faz passagens aumentarem 50%
Economista mostra o preço do descaso
Rodrigo Camarão

O economista Paulo Rabello de Castro debruçou-se sobre gastos diretos e indiretos de um passageiro para dar aos transtornos nos aeroportos um preço. Nas suas contas, ainda preliminares, ele ressalta: a crise aérea fez as passagens aumentarem de valor de 50% a 60%.

Na conta, o PhD em Economia pela Universidade de Chicago leva em conta três variáveis: a passagem, o tempo gasto pelo passageiro e o risco total. A primeira etapa é a mais fácil, já que está expressa no valor nominal do bilhete pago pelo passageiro. O tempo gasto vai variar, segundo o especialista, de acordo com o custo das horas que cada um desperdiça na longa espera das salas de embarque lotadas, com vôos atrasados.

- A partir da segunda hora de atraso, o preço da passagem já subiu 50%, calculado pelo custo médio das horas das pessoas envolvidas - ressalta Paulo Rabello.

Para calcular o preço de um passageiro, o economista usou como base um indivíduo das classes A ou B, com renda acima de 10 salários mínimos, em horário comercial. A partir daí, calculou quanto ganha uma pessoa com esse perfil por hora:

- Cada um tem um custo. Uma pessoa que paga R$ 10 mil para viajar num jatinho, quando poderia pagar R$ 1 mil pelo mesmo percurso, tem o preço da hora muito maior. Tempo é dinheiro.

O terceiro e último elemento da conta de Paulo Rabello de Castro é o risco de pegar um avião. Ele usou dados do Centro Nacional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa). Em 1990, havia uma média anual de 70 mortes por ano em acidentes aéreos. Em 1996, o acidente com o Fokker 100 da TAM elevou o número para 188. Em 2006, a cifra atingiu 215 mortos, com outro acidente, desta vez da Gol, em Mato Grosso. Só este ano, com a tragédia que matou 199 pessoas no vôo 3054 da TAM, o número já saltou para 228.

- O número de mortes já é três vezes maior - calculou o PhD. Paulo apresentou rapidamente o estudo durante um seminário sobre a crise aérea promovido pela Coppe/UFRJ, quinta-feira.

O duopólio hoje formado por TAM e Gol no mercado ainda restringiu as chances de o passageiro escapar do prejuízo quase certo. Como avalia o economista, uma das grandes contradições do sistema foi que a desregulamentação, no lugar de aumentar a concorrência, legou a apenas duas empresas o transporte de 90% dos passageiros.

- O transporte aéreo exige um grau de especialização, tem custos elevadíssimos com combustível, manutenção das aeronaves - diz o professor Respício Espírito Santo, colaborador da Coppe/UFRJ. - O único país que tem um grande oligopólio, com diversas empresas fortes no setor, são os Estados Unidos. A liberalização do setor foi benéfica no mundo inteiro. Deu mais oportunidade para as classes C, D e E viajarem de avião. Isso movimenta a economia positivamente. Quanto mais o governo intervém, pior fica para a sociedade no mundo inteiro.

Apresentado como uma das soluções para a crise, o investimento em terminais de aeroportos também foi duramente criticado no seminário. Anderson Ribeiro Correia, presidente da Sociedade Brasileira de Transporte Aéreo e professor do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, compara a construção do terceiro terminal de passageiros do Aeroporto de Guarulhos a uma obra inútil, se não for feita a terceira pista.

- Temos de oferecer mais capacidade nos aeroportos no lugar certo. O mercado escolhe esses lugares. Não adianta fechar o Aeroporto de Congonhas e não investir em Guarulhos - disse. - Se o governo fizer um terceiro terminal sem construir uma terceira pista em Cumbica, o aeroporto vai virar um depósito de pessoas. Há hoje uma ânsia para se investir em terminais, mas as pessoas têm que viajar na hora que precisam.

 

 

Jornal do Brasil
12/08/2007

Profissões da aviação perderam o glamour

A crise aérea fez com que empregos que envolviam glamour, viagens pelo Brasil e pelo mundo e bons salários perdessem parte do charme e do status. A antes disputadíssima profissão de comissário de bordo já não é tão concorrida assim. A TAM oferece 100 vagas em Congonhas e Guarulhos, conforme divulgou em seu site na seção "Trabalhe conosco". Logo depois do acidente com o vôo 3054, o JB mostrou que a empresa paulista teve pelo menos 170 pedidos de demissão e licença médica.

O candidato precisa ter altura mínima de 1,62 metro, Ensino Médio completo e saber, pelo menos em nível intermediário, segundo idioma como inglês, espanhol, francês, italiano, alemão ou japonês.

As exigências são muito menores do que as da época de ouro da profissão.

- O comissário de vôo tinha uma carreira. Com 20 anos de atividade, chegava a ganhar R$ 4 mil, tinha uma escala mais humana, com diárias em moeda estrangeira - diz o comandante Marcelo Duarte, vice-presidente da Associação de Pilotos da Varig (Apvar). - Hoje, oferecem R$ 1,2 mil para a pessoa, geralmente uma jovem de pouco mais de 20 anos, trabalhar em São Paulo, com uma carga horária enorme e sem tanta segurança.

Para Marcelo, o déficit de 100 comissários de vôo é considerável.

- Para fazer a malha com 100 profissionais a menos, alguma coisa está errada. Ou deixam de fazer vôos ou estão com equipes sobrecarregadas - ressalta.

A presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas, Graziella Baggio, evita a relação entre as contratações e a tragédia do dia 17. Segundo ela, a maior concorrente também está abrindo vagas.

- Em setembro, a Gol vai admitir 60 comissários, e a Varig, 88 - enumera a sindicalista, que é ex-comissária de vôo.

Na sexta-feira, em Brasília, procuradores do Trabalho reuniram-se com representantes dos sindicatos de profissionais da aviação. Depois de realizar trabalhos de campo em aeroportos durante uma semana, a força-tarefa do Ministério Público apontou uma série de irregularidades detectadas - entre elas, sobrecarga de trabalho, descumprimento de acordo coletivo da categoria, falta de descanso, terceirizações ilícitas e assédio moral.

- Depois do processo de investigação, o MPT vai entrar em contato com as empresas aéreas para firmar Termos de Ajustamento de Conduta para sanar as irregularidades e, se necessário, também poderemos ajuizar ações civis públicas com pedido de pagamento de multas elevadas em caso de descumprimento - explicou o procurador Alessandro Santos de Miranda, que comanda a Coordenadoria Nacional de Defesa do Meio Ambiente de Trabalho. (K.I. e R.C.)