Deputada elogia inicicativa dos trabalhadores

Informativo TGV – 132/2006
Deu na Imprensa

Zero Hora

Varig é dos funcionários
Sob risco de falência, a principal companhia aérea brasileira recebe, com a aprovação da venda, um empurrão para continuar operando

Mais de 10 dias depois do leilão da Varig, a Justiça homologou a venda da parte operacional da empresa para um consórcio formado por trabalhadores e investidores ainda não revelados. O grupo ofereceu R$ 1,010 bilhão pelas rotas domésticas e internacionais da companhia. Agora, dentro de um prazo de 72 horas, é preciso realizar depósito de US$ 75 milhões à Varig.

Os recursos são urgentes para o pagamento de fornecedores, mas o movimento Trabalhadores do Grupo Varig (TGV), que forma a NV Participações, adiantou que deve recorrer ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para financiar o aporte. Márcio Marsillac, coordenador do TGV, afirmou que isso deve ser necessário, se não houver tempo hábil para que os investidores que fazem parte do consórcio NV liberem os recursos para o pagamento do sinal de US$ 75 milhões até sexta-feira.

- Levaremos garantias ao BNDES para obter o financiamento - disse Marsillac, acrescentando que o TGV não deverá aproveitar todos os funcionários integrantes do atual quadro da companhia.

Para o diretor-geral da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Milton Zuanazzi, a homologação da proposta de compra da Varig pelo consórcio foi satisfatória.

Após o depósito, os compradores da companhia aérea terão um prazo de 30 dias, prorrogáveis por mais 30 - desde que pagos mais US$ 50 milhões -, para apresentar à Anac os documentos necessários para que seja confirmada a venda. Caso o depósito não ocorra, o leilão perde efeito.

Uma das principais regras que devem ser respeitadas é a norma constitucional que limita a 20% do capital da empresa a participação de investidores estrangeiros na aviação comercial brasileira. Infraero e outros credores que preferiram não se identificar receberam a homologação com ressalvas, devido às dúvidas que ainda cercam a operação.

O que fica como incógnitas são: se o BNDES vai conceder empréstimo à NV, qual a identidade do investidor, se o TGV fará o número de cortes necessários e se a operação com as debêntures terá êxito. Perguntas que têm de ser respondidas em curto prazo.

Novo vôo

A nova Varig

O grupo de trabalhadores adquiriu por todas as operações da empresa, ou seja, o direito de administrar os vôos nacionais e internacionais da companhia. Horários, freqüência de vôos, espaços nos aeroportos, aeronaves e funcionários agora estão sob o guarda-chuva do TGV. Novos controladores não herdam as dívidas.

Frota: 60 aeronaves (46 em operação)

Funcionários: 9,4 mil

Participação de mercado*: 14,4% (doméstico) e 66,45% (internacional)

*Até maio

A velha Varig

As dívidas de R$ 7,9 bilhões ficam com a Varig Comercial, nova denominação da antiga empresa. Além dos recursos recebidos com a venda das operações, a Varig Comercial terá as receitas do programa de milhagem Smiles, percentual nas vendas de passagens e recursos da prestação de serviços em terra. A "velha" Varig também herdará os R$ 4,5 bilhões que o governo federal deverá pagar em razão de uma ação na Justiça. Os governos estaduais também devem outro R$ 1,3 bilhão. Estes recursos serão administrados pelos credores.

Passo-a-passo da crise:

2005

17/ 06 - A Varig pede recuperação judicial prevista na nova lei de Falências.

08/11 - TAP define a aquisição de duas subsidiárias da Varig: a VarigLog (posteriormente vendida à Volo) e a Varig Engenharia e Manutenção (VEM).

14/07 - Aeroviários protestam na Avenida dos Estados, em Porto Alegre. A partir dessa data, as manifestações se tornam freqüentes.

15/12 - A Fundação Ruben Berta, controladora da Varig, é afastada da direção da empresa pelo juiz que comanda o plano de recuperação judicial.

2006

23/02 - Credores aprovam bases da recuperação judicial.

04/04 - A VarigLog oferece US$ 350 milhões pelo controle da Varig.

05/04 - Buraco no fluxo de caixa atinge o limite. A Varig pressiona as estatais Infraero e BR Distribuidora por prazos de pagamento .

06/04 - A Ocean Air propõe o compartilhamento de vôos em rotas deficitárias da Varig. O acordo emperra na Anac poucos dias depois.

12/04 - Governo intervém no Aerus e determina a liquidação dos planos de aposentados da Varig (à direita), para evitar o uso do fundo na quitação de dívidas.

13/04 - A VarigLog aumenta sua oferta pela Varig para US$ 400 milhões.

18/04 - A Anac veta a venda da empresa para VarigLog.

20/04 - O governo muda de postura e passa a estudar alternativas para a empresa. Um empréstimo do BNDES passa a ser cogitado.

02/05 - A assembléia de credores é adiada por falta de quórum.

05/05 - A VarigLog desiste de comprar a Varig.

09/05 - Credores aprovam plano de salvação da Varig.

07/05 - Grupo de funcionários e aposentados comemora o aniversário de 79 anos da Varig, com faixas e bolo no Brique da Redenção.

27/04 - O governo discute plano com a consultoria Alvarez & Marsal. A proposta prevê a divisão em duas companhias.

26/04 - A Infraero cobra dívida de R$ 133 milhões e pagamentos diários de R$ 900 mil, mas abre negociação.

09/05 - Credores aprovam modelo do leilão de venda da companhia.

08/06 - No leilão, apenas a NV Participações, que representa o TGV, trabalhadores da companhia, apresenta proposta de R$ 1,010 bilhão.

09/06 - Juiz adia decisão até dia 12.

12/06 - Ayoub adia outra vez a homologação da venda e estabelece condições para aprovar o negócio. A NV tem de comprovar origem dos recursos e apresentar uma alternativa aos R$ 500 milhões em debêntures.

13/06 - A Justiça de Nova York prorroga até dia 21 a liminar que impede a retomada de 25 aviões, o que impediria boa parte das operações internacionais.

16/06 - BR Distribuidora dá prazo para a empresa comprar combustível com recebíveis de passagens compradas com cartões de crédito. Infraero ameaça recolher tarifas direto dos passageiros.

Ontem - Juiz homologa venda da Varig


Zero Hora
20/06/06
"Precisamos da ajuda do governo"

Entrevista com Márcio Marsillac - Coordenador do TGV

O coordenador do movimento TGV, o piloto Márcio Marsillac, 40 anos, avalia que a Varig precisa de pelo menos US$ 150 milhões de capital de giro, nos próximos dois meses. Ontem, na saída do Tribunal de Justiça do Rio, concedeu por telefone entrevista a ZH.

ZH - Qual o próximo passo?

Márcio Marsillac - Teremos uma travessia pesada até sexta (quando se esgota o prazo para o depósito de US$ 75 milhões). Precisamos monetizar (transformar em moeda) as garantias que apresentamos à Justiça para fazer o depósito de US$ 75 milhões.

ZH - Como os senhores pretendem fazer isso?

Marsillac - Precisamos da ajuda do governo. Queremos que o BNDES faça um empréstimo para que possamos depositar os recursos. O banco financiaria a NV, com o empréstimo garantido pelo nosso investidor.

ZH - Os senhores têm os R$ 285 milhões em dinheiro, previsto na proposta do TGV?

Marsillac - É a parte garantida pelo nosso investidor.

ZH - Esse investidor é nacional ou estrangeiro?

Marsillac - Não podemos informar.

Zero Hora
20/06/06
Empregado não larga o manche

PEDRO DIAS LOPES

O novo controlador da Varig surgiu do combate de um grupo de funcionários contra a Fundação Ruben Berta, entidade que comandou a companhia nos últimos 60 anos e que, originariamente e por ironia, foi criada com o nome de Fundação dos Funcionários da Varig, em 1945.

A base do Trabalhadores do Grupo Varig (TGV) foi erguida na Associação de Pilotos da Varig (Apvar). Em 2002, na gestão do comandante Flávio Souza, a Fundação Ruben Berta era liderada por Youtaka Ymagawa e, a Varig, por Ozires Silva. Já não era segredo para ninguém que a situação havia se agravado nos últimos 10 anos e que a interferência de Youtaka nas decisões da empresa era excessiva.

Souza e outros integrantes da Apvar começaram peregrinações a Brasília e junto a deputados estaduais, especialmente, nos legislativos gaúcho e fluminense. O grupo denunciava que a Varig estava em uma situação pré-falimentar e propunha um projeto alternativo, denominado Plano de Reestruturação Ampla (PRA), elaborado pela consultoria SR Rating, do economista Paulo Rabello de Castro, a pedido dos pilotos.

As movimentações resultaram em 60 pilotos demitidos, que gradativamente foram reintegrados à empresa pela Justiça. Nos quatro anos seguintes, o grupo foi uma pedra no sapato da maioria dos presidentes que passou pela Varig nesse período e dividiu os funcionários. Os presidentes não levavam o PRA a sério e muitos trabalhadores, inclusive sindicatos, taxavam o grupo de "apenas mais uma facção tentando tomar o poder na Varig".

Em 2003, juntaram-se à Apvar a Associação dos Comissários da Varig (Acvar), Associação dos Mecânicos de Vôo da Varig (Amvvar) e a Associação dos Pilotos da Nordeste (APN), formando o movimento Trabalhadores do Grupo Varig (TGV). O objetivo foi a luta pela preservação da empresa, pelo nível e qualidade dos empregos, manutenção do fundo de pensão Aerus e garantia dos direitos trabalhistas e previdenciários. Aos poucos, novas associações e sindicatos de funcionários da empresa entraram no grupo.

Situação se agravou muito, com ameaça de falência

Com a entrada em recuperação judicial e o acirramento da crise, a representatividade do TGV foi crescendo e Marcelo Bottini, o atual presidente da companhia, não entrou em choque com o grupo. Na assembléia de credores, realizada há dois meses, o TGV conseguiu não só modificar a proposta da Varig, como também foi decisivo para a aprovação.

Os principais líderes do movimento são os pilotos Márcio Marsillac e Rodrigo Marocco. O primeiro cuidando mais das articulações no campo político, o segundo, desempenhando um papel mais operacional no TGV, apoiado pelo economista Paulo Rabello de Castro.

O movimento nunca escondeu a idéia de formar um consórcio para tentar dar um lance no leilão. Quando o pregão foi antecipado, o grupo criticou a decisão do juiz Luiz Roberto Ayoub, porque contribuiria para desvalorizar o preço da Varig. No dia do leilão, porém, o TGV foi o único a apresentar oferta. A resistência de Ayoub em homologar a proposta, levou a especulações quanto à falta de consistência da oferta e até de que se trataria de um blefe para bloquear a eventual falência.

O TGV insistiu na oferta e conseguiu a homologação. Em 10 dias de espera, a Varig viu seu caixa chegar ao limite, cancelou vôos e teve o fornecimento de combustível ameaçado. A falência rondou a empresa com persistência. Por volta das 20h de ontem, o sonho de quatro anos de um grupo de pilotos tornava-se realidade. Com o acordo com investidores ainda não identificados, o TGV conseguiu evitar o fim da Varig e participará do controle da mais tradicional companhia aérea do país. De funcionário para funcionário.

Nossa mobilização é a arma da vitória!