


O Globo
21/08/2010 03h32m
Justiça do Rio decreta falência da antiga Varig
Danielle Nogueira e Clarice Spitz, O Globo
A antiga Varig, que atuava sob a bandeira Flex, teve sua falência decretada pela Justiça do Rio nesta sexta-feira, jogando num mar de incerteza milhares de credores - muitos deles ex-funcionários da empresa - que ainda não conseguiram receber salários atrasados e indenizações trabalhistas.
A sentença, assinada pela juíza Márcia Cunha, em exercício na 1ª Vara Empresarial do Rio, foi proferida após pedido do gestor judicial da companhia, o Licks Contadores Associados, que reconheceu a incapacidade da aérea quitar suas dívidas. A empresa estava em recuperação judicial há cinco anos.
Além da antiga Varig - originada da cisão do grupo em 2006 - a sentença abrange mais duas empresas do grupo: Rio Sul Linhas Aéreas e Nordeste Linhas Aéreas, inoperantes.
A nova Varig, controlada pela Gol, não será afetada pela decisão judicial.
Há meses a Flex vinha dando sinais de que a falência estava próxima. Desde o início do ano, seu único avião não voava. E a negociação das ações na Bovespa foi suspensa por atraso na divulgação dos balanços financeiros.
Todos os ativos da antiga Varig serão liquidados para pagar credores. São mais de 15 mil, incluindo ex-empregados, o fundo de pensão Aerus e bancos. A dívida supera R$ 7 bilhões.
Entre os ativos que serão alienados está o centro de treinamento de aeronautas, na Ilha do Governador, referência mundial.
Estações de rádio operadas pela antiga Varig para orientação de pousos e decolagens de várias empresas deverão ser transferidas à Trip, única a se interessar pelo serviço.
A Trip informou que "analisa o equilíbrio econômico do negócio". Com salários atrasados, operadores das estações já haviam ameaçado fazer greve, o que provocaria um caos aéreo.
Pilotos e outras profissões relacionadas à aviação podem garantir o seu embarque no mercado de trabalho. O tráfego aéreo de passageiros cresceu 6,5% apenas no primeiro semestre deste ano ante o mesmo período de 2008, de acordo com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), abrindo portas para muitas vagas.
Atualmente, são mais de 12 mil aeronaves – incluindo aviões e helicópteros civis de todas as categorias – responsáveis por transportar mais de 50 milhões de pessoas por ano no país. Mas na contramão do crescimento, faltam profissionais qualificados dispostos a seguir carreira, em terra e no ar, apontam especialistas do setor.
– Há carência principalmente de pilotos com experiência. Muitos, após a paralisação das atividades da Vasp, Transbrasil, Varig, Rio Sul, Nordeste e BRA, optaram por trabalhar no Exterior, onde salários e benefícios são mais atrativos – explica Graziella Baggio, presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas.
Juliano Noman, superintendente de Serviços Aéreos da Anac, discorda. Para ele, o problema não é a falta de mão de obra, mas a dificuldade de formar gente em um curto prazo.
– Temos profissionais suficientes. Mas precisamos treinar pessoas para suportar o crescimento que esperamos para os próximos anos – pondera o superintendente.
De acordo com Noman, é possível formar técnicos entre 12 meses e 18 meses. Porém, fazer com que a carreira decole no setor da aviação nem sempre é tarefa fácil de ser executada. Os cursos são caros para todos os cargos, argumenta Graziella:
– O investimento no aprendizado é alto. E os salários não atraem mais.
Investimento na formação é expressivo
Luiz Augusto Jaborandy, 23 anos, confirma que o retorno do alto investimento para começar a carreira muitas vezes só começa a aparecer a partir do terceiro ano de profissão, como estimam também os especialistas. Em 2007, acompanhando o pai, piloto militar em viagem aos Estados Unidos, conquistou as habilitações americanas de piloto privado, privado de helicóptero, voo por instrumento, comercial (de linhas áreas e táxi aéreo) e bimotor.
– É um diferencial para a carreira. O inglês é valorizado, principalmente a linguagem técnica. Sem contar a experiência adquirida em aviões cuja tecnologia é muitas vezes superior à nossa – avalia Jaborandy
De volta a Brasília há seis meses, o estudante do curso superior de aviação civil comemora a aprovação da experiência pela Anac. Isso porque, para validar a formação americana no Brasil, ele passou por provas teóricas e práticas elaboradas pelo órgão.